Cristianismo e Eleição: Reflexões sobre a Ruína de um Monumento.



A questão da eleição — esse ato divino de escolher aqueles que serão salvos — ocupa um lugar central na teologia cristã. Desde Paulo, que em sua Epístola aos Romanos fala dos “predestinados” para a glória de Deus, o conceito tem provocado debates sobre liberdade, justiça e salvação. Contudo, é com Tomás de Aquino que encontramos uma explicação que preserva a dignidade do livre-arbítrio humano diante do mistério da eleição divina.


Tomás não restringe a eleição ao corpo sacerdotal, mas a compreende como parte do plano universal de salvação. Em sua Suma Teológica, ele afirma que Deus, em Sua sabedoria, predestina certos indivíduos para a salvação, mas essa eleição não anula a liberdade humana nem torna a salvação um privilégio exclusivo de alguns. O sacerdócio, em Tomás, não é prova de eleição divina, mas um ofício elevado que serve à administração da graça, um meio pelo qual Deus guia a humanidade. Nesse sentido, entendemos aqui que a vida puritana e em plena concordância com a Palavra não provêm da eleição, no sentido de ser determinante para a salvação, e sim parte de um ofício destinado a poucos, já que agir conforme a Palavra de Deus é difícil para a maioria. 


Essa compreensão contrasta profundamente com a doutrina calvinista, que traz um conceito mais rígido e perturbador: a dupla predestinação. Segundo Calvino, Deus já determinou, desde a eternidade, quem será salvo e quem será condenado. É uma escolha divina irrevogável, feita sem levar em consideração os méritos ou ações humanas. Enquanto Tomás vê a eleição como um chamado à cooperação com a graça divina, Calvino vê a predestinação como um decreto absoluto que coloca o ser humano diante de um abismo — a possibilidade de estar eternamente condenado sem saber.


Essa diferença teológica produziu frutos históricos e culturais distintos. No catolicismo, a graça é oferecida a todos, e a Igreja, através dos sacramentos, assume o papel de mediadora entre o ser humano e Deus. O cristão católico é convidado a viver uma vida de fé, mas sabe que não será julgado exclusivamente por suas obras ou virtudes, pois a salvação é um mistério de graça. No protestantismo, por outro lado, a salvação torna-se uma questão individual e subjetiva. O fiel deve buscar sinais de sua eleição, muitas vezes recorrendo a uma moral rígida e a uma disciplina quase puritana para provar — a si mesmo e aos outros — que está entre os escolhidos.


Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, identifica como essa busca pela confirmação da eleição gerou a ética capitalista moderna. O trabalho duro, a austeridade, o sucesso material tornaram-se sinais de bênção divina. A fé interior precisou ser traduzida em resultados visíveis. Isso produziu, como Balzac tão bem captou, uma sociedade de aparências, onde a moral cristã é utilizada como justificativa pública para a ambição privada.


Em Ilusões Perdidas, Lucien de Rubempré observa o comportamento dos protestantes ingleses, que, embora preguem austeridade, vivem na hipocrisia. E em O Lírio do Vale, Félix de Vandenesse retrata Lady Arabelle como uma mulher que usa a moral cristã para ascender socialmente, mas a despreza em sua intimidade. Balzac vê no protestantismo uma moral que cria máscaras sociais, alimentando a hipocrisia e corroendo a autenticidade das relações humanas.


Enquanto isso, o catolicismo pós-Reforma mergulhou numa passividade letárgica. O clero, outrora responsável por guiar as almas, tornou-se um espectador da decadência espiritual da sociedade. A separação entre o sagrado e o profano transformou a Igreja em uma instituição burocrática, mais preocupada em manter tradições e privilégios do que em revitalizar a fé. Essa passividade tornou o cristianismo institucional cada vez mais irrelevante para o mundo moderno.


O erro fundamental do protestantismo foi acreditar que o ser humano, por si só, poderia alcançar a santidade, bastando para isso aceitar a fé em Cristo. Mas o cristianismo, desde suas raízes, sempre reconheceu o peso trágico do pecado original. O ser humano está inevitavelmente marcado pelo pecado, e a santidade não é um ideal alcançável. A graça, para o cristão, é uma dádiva, não uma conquista.


No entanto, a Reforma transformou essa verdade trágica em um paradoxo insuportável: os protestantes, ao mesmo tempo em que proclamam que a salvação vem unicamente pela fé, vivem obcecados por sinais de santidade exterior. Daí a hipocrisia que Balzac tanto criticou — a tensão entre a austeridade pública e a leviandade privada.


Essa confusão teológica produziu o que vemos hoje: uma religião fragmentada, com fiéis que desconhecem suas próprias tradições e instituições religiosas que perderam o contato com o essencial. O cristianismo parece dar seus últimos suspiros, não apenas porque as igrejas estão vazias, mas porque a fé se tornou superficial, esvaziada de mistério, reduzida a um conjunto de regras sociais e morais.


Mas talvez essa morte seja necessária. Como um monumento que precisa ser destruído para dar lugar a algo novo, o cristianismo institucionalizado parece caminhar para seu fim. O que pode surgir das cinzas? Talvez uma espiritualidade mais íntima, desvinculada das instituições, que recupere o essencial da mensagem cristã: a angústia da existência, a busca pelo transcendente e o confronto com o mistério do ser.


O que resta, afinal, não é a hipocrisia moral, mas o abismo existencial — aquilo que tanto Tomás de Aquino quanto Calvino, cada um à sua maneira, tentaram enfrentar.

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