Por quê tornei-me Cristão?




Faço essa pergunta constantemente... afinal, por quê tornei-me Cristão? Será que de fato sou o cristão que desejei ser quando aceitei Cristo em minha vida? São essas minhas eternas dúvidas, e não poderia ser diferente, pois trata-se de quem sou. E refletir a respeito da identidade é algo que ocupa toda minha vida, e não só a minha, mas a de todos. Não podemos negar que estas perguntas atravessam nosso dia a dia: Quem somos para nós mesmos, e para os outros? Que relação mantenho com eles?. É impossível ignorar tais questões. E por isso, irei falar a respeito de como decidi respondê-las. 

Devo dizer que vivia numa monotonia; nada de relevante me acontecia. Como todo mundo, apenas tinha demandas a cumprir, estas eram: estudar, trabalhar, estar com os outros. Cada um tem uma maneira de viver isso, e eu tinha a minha. Alguém pode considerar estudar medicina, trabalhar em uma loja, estar com os amigos no cinema, ou em uma praça, conversar sobre celebridades, relações amorosas; eu de minha parte passei a amar a Filosofia, escrever textos, ser garçom, e conversar com poucos amigos a respeito do significado da vida. Afinal, quando se faz filosofia, e une-se ela com artes, passa-se a viver seu trabalho; nem sempre o médico é médico, ele para de exercer a profissão assim que sai do consultório, e se ninguém exigir suas habilidades, ele pode esquecer que é médico; mas o filósofo é sempre filósofo; em cada coisa que faz está filosofando, porque não pode deixar de pensar. Também eu, não parava de pensar, e tive a sorte de encontrar amigos que se deleitavam com esses pensamentos. Entre esses muitos pensamentos estava Deus. Tendo o privilégio de estudar na Europa, e mais ainda, encontrar um professor honesto, descobri que: o que quer que se diga de Deus, afirmar sua inexistência é impossível. E nenhum filósofo sério negou. A questão é: o que é Deus, e quem é Deus. Isso para a Filosofia depende, pois ela é o estudo do pensamento humano, e Deus se apresentou de muitas formas para o homem. Os poetas gregos cultuavam a existência de vários deuses, a maioria possuía vícios humanos, e posteriormente tais atitudes por parte desses deuses foram contestadas, porque uma divindade não poderia agir como se fosse homem; com Xenófanes, Aristóteles, e Plotino, Deus passa a ser único; ele é a causa de tudo que existe, mas não se relaciona com a existência; o Deus desses filósofos está aquém do homem. Entre nossos modernos, Nietzsche é quem afirma coisa semelhante, e por isso, apesar de vulgarmente ser considerado ateu, ele não o é de fato; o alemão acredita que Deus é o acaso, um destino sem sentido; puro aleatório; e é nesse indeterminado que o homem escreve sua história; sem amparo, com o próprio sangue. Além dos gregos, os orientais, indígenas latinos e norte-americanos cultuavam vários Deuses, porém, nenhum escrito nos ficou legado, e o que conhecemos deles deriva de uma tradição oral. Os gregos se destacam entre todos porque nos deixaram escritos sólidos; como fundadores da ciência ocidental, é curioso o fato de terem permanecido crentes em Deus (mesmo que desconhecido), visto que vulgarmente se acredita que a ciência refuta Deus. Cada vez que ouvia essas aulas e me aprofundava nesses estudos, sentia crescer em mim um amor pela divindade, e um desejo por esse mistério. Foi quando conheci Cristo.

Com Paulo, Jesus chega aos gregos, e consequentemente, aos ocidentais. Podemos ver isso em Atos 17 (15:34). Tal acontecimento deu ao pensamento filosófico outra forma de enxergar Deus. Agora temos o Deus que intervém; Ele está em situação com homem. Se revela, e relaciona-se com ele. Platão já havia mencionado uma relação do homem para com Deus. Em sua República ele afirma que o temor a Deus é a chave para a construção da harmonia na pólis (cidade). Os primeiros a se converterem são platônicos (Pseudo Dionísio Areopagita, Padre Grego, ex-platônico) (At 17, 34), pois reconhecem em Cristo muitas verdades proclamadas pelo discípulo de Sócrates. Dentre elas temos: a unidade de Deus, a piedade como valor supremo, bondade infinita, condenação da alma, e o fato de tudo ser arquitetado por Ele. Mas diferente do que Platão pensava, estar com Cristo é manter uma relação mútua com Ele, intima, e absoluta. Além do que, o Deus platônico não é criador, apenas ordenador. Por isso apesar das semelhanças e de muitas categorias platônicas apreenderem o que é Cristo, Ele está além daquilo que o ateniense pensou.

A história da filosofia me mostrou as principais formas de entender Deus, mas então, por quê tornei me Cristão? Tendo conhecido o Deus que está aquém do homem, e o Deus que está em situação com ele, decidi optar por Cristo, pois ao lado Dele é que se supera a indiferença frente aos outros, vive uma vida de dever pleno, e devota a sabedoria. Tornar-se cristão é uma mudança que não pode ser uma entre outras, é a mudança que reflete todas nossas ações, e isso se deve à sua soberania; viver como cristão é saber que Ele está presente em cada ação nossa, nos exigindo atitudes.

A Ideia de Deus, seja ela qual for, proclama a união, o princípio, a ordem. Ora, os gregos não se reportavam a deus para que intervisse nas questões humanas, deus organiza, mas não participa, e tampouco cria. Dessa forma, o homem é livre para fazer o que bem entende, e fazendo o que bem entende, acaba por fazer aquilo que é indevido para os outros; sendo livre para criar sua lei, cria a que lhe convém e passa por cima daqueles que dela discordam; já que deus não o julga, o homem pode decidir e fazer o que quer. Os deuses cultuados pelos povos originários - seja de que região for - cultuam deuses que barganham, dão na medida em que recebem, e não pretendem unir todos os povos por meio da Palavra, mas sim da submissão por meio da guerra. É como a história deles é contada, a luta pela verdade. Ao me deparar com isso, entendi que o quer que pensem a respeito de deus, nenhum é como Jesus. Não possuem a Verdade proclamada por Ele; e que Verdade é essa? A de que devemos amar e somos amados de graça. E esse amor é o desejo que a Verdade penetre pelo Espírito Santo; que Deus intervenha e ordene a alma humana, se apresentando a ela como o princípio soberano de tudo que existe, sendo a única que pode ser amada e adorada (MT 22, 37). Isso pode ser compreendido e explicado; demonstra-se que a Verdade Cristã é soberana porque é omnipresente na vida do homem. Deus está sempre ao nosso lado, e Ele nos vigia constantemente, nos ordena a amar o próximo, isto é lutar pela harmonia. E foi justamente isso que me cativou, estar submisso a Quem me exige o melhor, e o melhor não para mim, mas para os outros. Uma doação que não encontra limites, de mim para Ele, e para o próximo. Aceitei um Deus que me impele para a busca da Verdade, que me promete a Verdade, e também, me quer em meditação (PV 15, 14). Por isso o filósofo está mais perto da Filosofia (amor a sabedoria), quando está perto de Cristo. A Filosofia ajuda o cristão, porque por meio dela, ele pode se fazer compreender, não compreender Deus em sua totalidade, mas entender de forma clara o que é estar com Ele. Nesse caminho humilde, não irá tornar-se louco (RM 1, 22), pois saberá que nunca será perfeito como Deus, e não é melhor do que os outros pelo que sabe. Cristo retira a soberba que o filósofo tende a ter. 

Aceitar a Deus foi para mim um momento de elucidação. Foi voltar os olhos para os outros, não agir de maneira apática, não querer zombar, andar em entretimento, em leviandade, e sobretudo, saber quem sou; pois quando estamos sem deus, estamos sem orientação, e sem orientação podemos ser tudo, e ao mesmo tempo nada, porque nunca sabemos de fato o que queremos; mas estar comprometido com a união, com a harmonia, com o entendimento em Cristo, é ter uma identidade; talvez não saibamos que cristão seremos, mas teremos a Palavra para nos guiar.

Essa vida só Cristo nos oferece, pois Sua soberania se manifesta no fato de que em tudo que fazemos Ele está presente, assim como o filosofar. 

Não sei se sou o cristão que quis ser quando decidi viver os mandamentos Dele, mas em cada passo que dou me pergunto isso, como um exercício para melhorar. Pois amar, ser humildade, ter esperança, são coisas que aprendo dia após dia. 

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